domingo, 19 de fevereiro de 2017

Trump volta ao comício-show para seus fiéis em plena crise interna

Com múltiplas frentes de batalha abertas, a principal sendo a sombra da conexão de sua administração com o Kremlin, Donald Trump voltou neste sábado à trincheira em que se sente mais confortável, o comício-show. Milhares de seguidores o aguardavam num hangar do aeroporto de Melbourne-Orlando (Flórida), e o Comandante-Chefe, também performer-chefe, surgiu numa cena milimetricamente executada. O nariz do Air Force One veio pela frente do hangar: lento, majestoso, com música épica a todo volume.

Parou, a porta do avião se abriu, houve suspense por alguns minutos, e finalmente Trump saiu, acompanhado por sua esposa, Melania, aclamado por seus fiéis, para descer a escada de desembarque diretamente para o palco e fazer um discurso de 45 minutos em que desfiou os conhecidos tópicos de seu nacional-populismo –“Fazer a América grande outra vez”, “defender nossa fronteira”, “dar trabalho de novo a nossos mineiros”, “dar segurança a nossas vizinhanças”, “proteger nossos maravilhosos cidadãos”, “expulsar os terroristas”– e insistiu nos ataques ao que definiu na sexta-feira como “o principal inimigo do povo norte-americano”, os meios de comunicação. “Têm sua própria agenda, e a agenda deles não é a de vocês”, disse ao devotado público que compareceu ao hangar, um local, nas palavras do presidente, “cheio de patriotas trabalhadores”.

De terno e sem gravata, enérgico, estrondoso, o presidente voltou ao papel de candidato em campanha para eletrizar suas massas e lhes repetir que devem fazer ouvidos moucos aos “meios desonestos”. “São parte importante dos problemas deste sistema corrupto”. Afirmou que informam “sem fontes” e que “em muitos casos inventam” as notícias, apesar dele mesmo ter admitido em sua tempestuosa entrevista coletiva quinta-feira, uma hora de embate direto com os repórteres, que as revelações publicadas pelos meios saem de gargantas profundas do próprio sistema que lidera.

Em seu terceiro fim de semana seguido na Flórida, onde fica em sua mansão-clube de elite Mar-a-Lago, suntuoso casarão de estilo mourisco espanhol que sua equipe chama de “Casa Branca de Inverno” (embora Trump tenha criado na manhã de sábado num tuíte um estranho novo apelido, “A Casa Branca Sulista”), o presidente tentou se reconectar a seus partidários, a sua onda política, “um movimento”, disse, “nunca visto neste país e quiçá em nenhum outro lugar”. Suas bases o ovacionavam. A lua de mel de Trump com sua América, uma América real e grande, majoritariamente branca e de classe média, continua. “Apesar de todas suas mentiras, não conseguiram nos vencer”, “e prosseguiremos ganhando e ganhando”.

Assim como muitas pessoas da costa Leste descem à Flórida para desfrutar do Sol, o presidente Trump baixou neste fim de semana para injetar trumpismo no cenário do poder. Longe por um par de dias de Washington, essa fria capital tão pouco ao seu gosto, que desde o início de sua campanha comparou a “um pântano” que se encarregaria de “drenar”, Trump deixou que seus ouvidos fossem acariciados ouvindo seu povo gritar, outra vez: “Drene o pântano! Drene o pântano!”.

Precisava ouvir isso. Sua semana tinha sido um martírio. Na segunda-feira seu conselheiro de Segurança Nacional, o general Michael Flynn, demitiu-se, por ocultar do Governo informações sobre suas conversas com o embaixador russo. Na terça-feira o jornal The New York Times abriu mais essa ferida, publicando que vários membros da campanha do presidente tinham tido contato com altos funcionários da espionagem de Moscou. Na quarta-feira seu indicado para secretário do Trabalho, Andrew Pudzer, um Midas do fast food, demasiadamente exposto por um velho escândalo matrimonial e por ter empregado em sua casa uma imigrante sem documentos, jogou a toalha e renunciou a tentar ser confirmado pelo Senado.

EL PAIS

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